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Respiração, um aspecto importante no diagnóstico e na terapia psicomotora
Fonte / Autor(a): Beatriz Saboya
Data : 22/4/2003
Há quatro anos atrás, ao iniciar o meu mestrado em Educação Somática, escolhi aprofundar-me no estudo da respiração, centrando-me também na sua objetivação.
Utilizei uma forma simples para mensurar a respiração de indivíduos com dificuldades emocionais. Parti da seguinte premissa teórica e clínica: A emoção não só modifica a respiração, mas o seu bloqueio cristaliza padrões desarmônicos de respiração.
O suporte filosófico foi fenomenológico; o neuro-anatomofisiológico compreende a análise da respiração como um sistema funcional; e o clínico vê a respiração como um comportamento psíquico observável; logo, o inconsciente manifesto no corpo.
Estudei 20 indivíduos entre 5 e 69 anos de ambos os sexos. Os dados subjetivos que visavam estudar os sentimentos, as expressões emocionais e os seus bloqueios, foram colhidos nas sessões terapêuticas, pelas observações do corpo e do verbo, desenhos e testes específicos.
Os dados objetivos foram colhidos através de uma metodologia de mensuração simples, que verificava: o mapa respiratório e suas perimetrias, a capacidade vital em volume aéreo, a freqüência em I.R.P.M., os fluxos, os ruídos, os tempos expiratório e vocalizado em segundos e o tipo de tórax.
Inicialmente estudei os dados objetivos e subjetivos de cada indivíduo, para verificar se a expressão ou não dos sentimentos, coexistia com desarmonias respiratórias. A coexistência foi verificada de várias formas.
A análise da coleta de dados possibilitou-me verificar, que não há correspondência absoluta e exclusiva, entre determinado tipo de emoção bloqueada com uma área circunscrita do corpo em que a respiração é inadequada, como divulgam vários autores de artigos e livros sobre respiração. No entanto verifiquei que 100% dos indivíduos tinham uma respiração nula ou inadequada na zona infra-abdominal. Este fato, tem me ajudado a trabalhar melhor com os meus clientes.
Outro fato interessante foi que, durante a realização do trabalho consta -tei a possibilidade, não prevista inicialmente, de comparar a consciência senso rial de cada indivíduo com a sua consciência emocional.
Entendo como consciência sensorial "boa", quando os dados objetivos colhidos pelo terapeuta coincidem com o que o cliente relata, e/ou desenha de acordo com o que sente no seu corpo. E, consciência sensorial "má", quando não há correspondência entre os dados objetivos e subjetivos.
Entendo como consciência emocional "boa" quando as verbalizações do cliente quanto às suas emoções expressadas, bloqueadas, ou modificadas coincidem com o que o terapeuta observa no decorrer da terapia. E, consciência emocional "má", quando as verbalizações do cliente não coincidem com o que o terapeuta observa.
Verifiquei que elas coincidem em 80% dos casos. Com isto quero dizer que:
Boa consciência sensorial = Boa consciência emocional
Má consciência sensorial = Má consciência emocional
Consciência sensorial razoável = Consciência emocional razoável
Como dado de diagnóstico, esta correspondência auxilia, em muito, a visão e o projeto do terapeuta. Em Análise Bioenergética os três passos básicos de uma terapia são: a autoconsciência, a auto-expressão e a auto-adequação. Logo, o indivíduo ter ou não uma boa autoconsciência sensorial e emocional é fator importante no processo terapêutico.
Enfim, verifiquei, aprendi e quero partilhar com os colegas psicomo-tricistas:
• Os bloqueios emocionais transformam a forma natural de respiração e cristalizam formas inadequadas de movimentação respiratória.
• Formas anômalas de respiração coexistem com dificuldades de expressão emocional, mas, elas não estão sempre circunscritas no corpo em relação a sentimentos determinados.
• Nós, profissionais da área da saúde, que lidamos com problemas emocionais e/ou respiratórios podemos contar com ferramentas objetivas e simples para mensurar a respiração. Em contrapartida, sabemos que não existem ferramentas objetivas e simples para mensurar sentimentos e emoções - A subjetividade se lida com a subjetividade e, a subjetividade é inerente às expressões emocionais. Não podemos dizer, por exemplo, " Eu te amo 90 , mas detesto ele 120".
• A observação e a mensuração da respiração constituem recursos importantíssimos no diagnóstico e na terapia, ao lado dos outros elementos objetivos e subjetivos fornecidos pelo cliente.
• A alta coincidência entre consciência sensorial e consciência emocional é um elemento importante a ser considerado no diagnóstico e no acompanhamento terapêutico.
• Na terapia com pessoas que têm asma, o fluxo e o IRPM têm apresentado melhoras, ao lado de uma diminuição das crises.
• Não é possível apoiar um estudo só no que o corpo comunica ou só no que é expresso pela palavra, mas nos dois. Os dois são complementares e indispensáveis.
• Terapia é a arte de se fazer ciência. A arte está ligada ao jeito de cada um, e é carregada de subjetividade.
• Ciência é algo comunicável e verificável, e nela precisamos nos apoiar com clareza.
Beatriz Saboya é fonoaudióloga, psicomotricista, fundadora da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade

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