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Entrevista com Regina Morizot
Fonte / Autor(a):SBP
Data : 22/4/2003
SBP: Como você vê a psicomotricidade desde o início até hoje?
R.M.: No momento atual, não se questiona mais o valor e o lugar da psicomotricidade entre nós - ela existe "de fato", e num futuro bem próximo, existirá "de direito", com a regulamentação da profissão. Num breve retrospecto, reportamo-nos aos anos 60, com o advento da psicomotricidade entre nós, utilizada em forma de recursos coadjuvantes à outras especialidades. Na década de setenta, o nosso acesso à área, ainda era bastante limitado, restringindo-se às informações de profissionais quew retornavam de cursos no exterior, sobretudo da França; estávamos ávidos de conhecimento e até as publicações sobre o tema, eram escassas. Mas, ainda assim, a prática eclodiu entre nós, com uma tônica - qualquer abordagem corporal era psicomotricidade. Recebemos uma herança inestimável, proveniente de diversas Escolas, representadas por Simone Ramain, Francoise Desobeau e André Lapierre. Aprofundamos nossos conhecimentos teóricos e científicos, redimensionamos a nossa prática e delimitamos nosso campo. A criação da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade em 1980, foi o marco fundamental do nosso movimento. Passamos por mudanças significativas até o nosso hoje, mudanças que por si só geraram transformações e que permitiram um pensar e repensar sobre a teoria, a prática, o campo de atuação e a formação do psicomotricista, estabelecendo a nossa própria identidade. No nosso hoje, a prática psicomotora, está implantada e sedimentada em creches, escolas, clínicas e hospitais; existe um campo aberto, da profilaxia à clínica; ela se estende do ciclo vital - bebês, crianças, adolescentes, adultos e idosos; a formação está estabelecida, com um curso de graduação, várias pós-graduações e cursos de especializações; no campo científico gostaria de relembrar que a Sociedade conseguiu realizar oito Congressos Internacionais, com a participação de profissionais de vários países. É este o nosso panorama atual.
SBP: No percurso do psicomotricista muitos tiveram que buscar uma formação no exterior. Você acha que lá fora continua à nossa frente ou conseguimos nos igualar?
R.M.: Creio, que já podemos nos considerar agentes de nossa própria evolução. Junto com a nossa "maioridade", atingimos também uma certa autonomia. Vamos continuar a escrever nossa própria história, Ter a nossa produção teórica e formar os futuros profissionais. Como é gratificante, ver nas livrarias as publicações dos psicomotricistas brasileiros! Mas, não podemos prescindir do intercâmbio com profissionais de outros países; a "troca" sempre será necessária para dar continuidade ao nosso crescimento.
SBP: Quanto à demanda, existe uma procura específica em psicomotricidade?
R.M.: A procura específica vem aumentando gradativamente, mas ainda está aquém de nossa expectativa. Lidamos com um problema crucial - uma certa desinformação dos profissionais das áreas de educação e saúde, que encaminham o paciente a partir do sintoma, de um modo mais ou menos aleatório. Como as alterações psicomotoras nem sempre são visíveis e não se restringem à motricidade, o encaminhamento específico deixa de ser feito. Em outra vertente, não é incomum, que profissionais de outras áreas, não habilitados, se atribuam a função de psicomotricista, pelo fato de utilizar recursos psicomotores associados à sua especialidade, desvirtuando os objetivos e o sentido da prática psicomotora, em detrimento de um trabalho sério e competente do verdadeiro psicomotricista.
SBP: Com todas as formações que você tem - fonoaudiologia, pedagogia, psicomotricidade, psicanálise e terapia de família - qual a área que apresenta maior demanda?
R.M.: Não posso me pronunciar quanto à área que apresenta maior demanda, pelo simples fato de não exercer todas estas profissões. Mas, existe uma demanda particular de cada profissional, que vai se construindo ao longo de um percurso de vida, motivado pelo saber e que funciona como uma rede de significantes. A minha primeira formação foi de professora de deficientes auditivos, com os quais trabalhei 25 anos, valorizando inicialmente, de um modo empírico o corpo e o movimento, através da dança e da dramatização, para favorecer a fala e a comunicação. Posso dizer que foi a mola propulsora, que me levou à fonoaudiologia, à pedagogia, à psicomotricidade, à psicanálise e à terapia de família. No final da década de 60, a psicomotricidade tornou-se o meu "objeto de amor", e em 1972, já tinha conseguido introduzir os grupos de psicomotricidade na educação do surdo. São as marcas de cada experiência, significativa que constituem os alicerces da identidade. A minha identidade profissional, no momento atual, é de psicomotricista e psicanalista, e a maior demanda está ligada à esta minha identidade. Na psicomotricidade, me dedico às supervisões em grupo, ao curso de formação em terapia psicomotora - articulado à teoria psicanalítica - e aos processos de avaliação da criança.
SBP: Como você vê a graduação em psicomotricidade?
R.M.: A graduação "latu sensu" em psicomotricidade foi iniciada em 1990 no IBMR, com a duração de quatro anos, curriculum adaptado da Formação na França e já está reconhecida pelo MEC. O curso normatiza os conhecimentos fundamentais para o exercício da profissão, incluindo além da teoria e técnica, a prática através de estágios supervisionados. O ensino é canalizado para as áreas de educação e reeducação. Sem dúvida, podemos considerar mais um marco no itinerário de nossa psicomotricidade, favorecendo a legalização da profissão.
SBP: Qual o tempo de percurso que um estudante interessado em psicomotricidade deveria fazer?
R.M.: Não creio que possamos dimensionar a formação de um psicomotricista apenas pelo tempo de percurso, ainda que paradoxalmente, seja necessário um tempo para a internalização e processamento dos conhecimentos. Uma graduação "autoriza" o exercício profissional, em termos de educação e reeducação. O percurso do terapeuta é mais longo e complexo, passa por uma formação sem fim, cabendo um compromisso ético do saber sobre si, sobre sua competência, e que permitirá não apenas ser "autorizado", mas "autorizar-se".
SBP: Qual a importância da supervisão na formação do psicomotricista?
R.M.: Quando nos referimos à práxis psicomotora, relevamos sempre uma trilogia - teoria, técnica e formação pessoal - que se entrelaçam dando o suporte necessário ao desempenho da profissão. O objetivo da supervisão é favorecer a consolidação desta trama, reforçada pelo olhar de um profissional em relação ao outro. A supervisão facilita a compreensão de determinadas situações, ampliando a percepção, suscitando um "questionar-se", voltado à reflexão. Existem várias modalidades de supervisão - e na minha visão- é necessário que o supervisor possa romper o dogmatismo do saber, renunciar a alguns pressupostos, evitar a doutrinação, ou ainda ser o detentor da verdade. Atualmente valorizo a supervisão em grupo, que permite o confronto de idéias dinâmicas e divergentes, favorecendo o caminho para a individuação e autonomia profissional.
SBP: Como você vê o trabalho de pesquisa na área da psicomotricidade? Você está realizando alguma investigação?
R.M.: É fundamental para o nosso crescimento, mas o trabalho de pesquisa ainda é restrito e pouco divulgado. No presente momento não estou realizando nenhuma pesquisa, mas tenho investigado e estudado a questão da psicomotricidade na geriatria, área que considero ainda muito pouco explorada entre nós. Aproveito a oportunidade para convocar voluntários que tenham interesse em fazer estudos e pesquisa nesta área.
Finalizando, gostaria de desejar à nova Diretoria da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, pleno êxito nos seus objetivos, torcendo para que possamos rapidamente obter a regulamentação da profissão, quando a psicomotricidade existirá não apenas de fato, mas também de direito.
Regina Morizot é fonoaudióloga, psicomotricista, psicanalista e terapeuta de Família, Sócia fundadora da S.B.P.

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